sala-espera
um dia assim. chuvinha o tempo todo. ele vai embora. espero que não demore muito. temos pendências. chamo-me secretária e ainda não tive tempo de ir a manicure. o chefe sai pro almoço e fico ouvindo madona. Enya tá lá esperando. música boa, mas esses papos de cabala, astrologia, números da sorte me embrulham o estômago. meu número predileto é 2. diádico porque triângulos geram equações muito complexas. se tivesse botãozinho de off eu desligava os fofoqueiros que ficam na mesa em frente a minha. todo mundo sabe ditar regrinhas de boa conduta. "menina, sabe o que a Martinha aprontou na festa ontem?" só param para atender telefone. "Alô?! meu bem, tava pensando em você agora..." marca encontro com a amante e fala que a Cláudia deu em cima da metade da festa. da outra metade não porque eram mulheres ou gays e ela se preocupa com as aparências. telefone, o chefe dizendo que não volta. a tarde será longa e as pendências ficarão pendentes. é por isso mesmo que o Virgílio nem aparecerá aqui hoje. só queria esquecer o quanto há de parasitas por aí. passaria a tarde inteira contanto se não tivesse coisa mais interessante para fazer como ouvir Enya e pintar as unhas. "o mundo é cheio de incoerências". digito essa frase, em Copperplate Gothic Bold, tamanho 42, e colo ao lado do pc. coloco headfone e fico lendo A Divina Comédia de frente pra janela de vidro que dá para a avenida. o chefe que resolva as pendências se eu não comparecer às 8 em ponto amanhã.
Quésia, agosto de 2003.
[outro mini-conto "das antiga"]
