sexta-feira, fevereiro 25, 2011

sala-espera


um dia assim. chuvinha o tempo todo. ele vai embora. espero que não demore muito. temos pendências. chamo-me secretária e ainda não tive tempo de ir a manicure. o chefe sai pro almoço e fico ouvindo madona. Enya tá lá esperando. música boa, mas esses papos de cabala, astrologia, números da sorte me embrulham o estômago. meu número predileto é 2. diádico porque triângulos geram equações muito complexas. se tivesse botãozinho de off eu desligava os fofoqueiros que ficam na mesa em frente a minha. todo mundo sabe ditar regrinhas de boa conduta. "menina, sabe o que a Martinha aprontou na festa ontem?" só param para atender telefone. "Alô?! meu bem, tava pensando em você agora..." marca encontro com a amante e fala que a Cláudia deu em cima da metade da festa. da outra metade não porque eram mulheres ou gays e ela se preocupa com as aparências. telefone, o chefe dizendo que não volta. a tarde será longa e as pendências ficarão pendentes. é por isso mesmo que o Virgílio nem aparecerá aqui hoje. só queria esquecer o quanto há de parasitas por aí. passaria a tarde inteira contanto se não tivesse coisa mais interessante para fazer como ouvir Enya e pintar as unhas. "o mundo é cheio de incoerências". digito essa frase, em Copperplate Gothic Bold, tamanho 42, e colo ao lado do pc. coloco headfone e fico lendo A Divina Comédia de frente pra janela de vidro que dá para a avenida. o chefe que resolva as pendências se eu não comparecer às 8 em ponto amanhã.
Quésia, agosto de 2003.
[outro mini-conto "das antiga"]

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Não é que fosse uma má pessoa, apenas não apreciava certas regras de convívio social.
Certa vez decidiu que iria caçar mosquitos. Abria bem a boca assim, desse jeito, e quando o bichinho caía na armadilha "nhac"! Um, dois, três... até que, com a barriga cheia, foi beber água do vaso para desembuchar. Ao som de "pull me under" começou a desenhar uns traços confusos na parede pintada de roxo do seu quarto, algo que, confesso, não entendi muito bem, mas acabei por pensar que fosse um diagrama de sua cidade invisível. Savanah Lah Mar? Talvez. Ou quem sabe alguma das cidades de nomes de mulheres de Ítalo Calvino. Aumentou o som, foi para a janela e começou a medir estrelas e cheirar o céu. Isso tudo depois de olhar para a garrafa vazia de vodka, daquelas bem baratinhas, com nome de mulher da Rússia, sabe qual? O que faria em seguida? Beber-me? Fumar-me? Riscar-me de giz? Antes da resposta que o olhar não dizia, apanhei as tintas de suas mãos e pintei uma poesia.


(Escrito em abril de 2006 - depois coloco uma fotinha que agora tô de preguiça rsrsrs)