A Voz e o Violão da Estrela
era uma estrela. caminhava lentamente. areia quente, pés no chão. sentia a brisa que vem e que vai. que leva e que traz o cheiro salgado do mar e a canção das ondas. era manhã de sol e a estrela contemplava a metrópolis. tinha o dia inteiro, o que é muito pouco tempo para quem quer conhecer o mar. era uma estrela, e, como qualquer outra estrela, quando caminhava, sorria. calma e constante ela andava, de um jeito que nem você nem eu, que andamos arrastando o chinelo, jamais conseguiremos ser. era só uma estrela só. já disse que a metáfora tem hora? era só uma estrela luzente e sorridente como qualquer outra. tudo que passar disso é imaginação sua.
a estrela, que também brilhava muito, ficava com as pupilas tão pequeninhas por causa do sol. de vez em quando olhava para o céu que estava tão lindo como os céus de abril. usava óculos escuro e protetor solar para não se queimar. ao entrar na água, o fazia lentamente, um pé após o outro, sem pressa nenhuma. diferente de você e eu que andamos apressados e correndo. não era por medo, já que estrela não se afoga nem toma caixote e ela sabia disso. era só precaução mesmo: coisa de etiqueta.
passou num quiosque e pegou uma cerveja, é claro, uns camarões fritos, uma água tônica Schweppes com gelo e limão e um violão emprestado. sentou-se à sombra de um coqueiro e cantava uma canção que ouvira ao passar pela praia enquanto escrevia poesia. de quem era aquela letra mesmo? era Toquinho? seria Vinícius? "sei lá sei lá / a vida é uma grande ilusão / sei lá sei lá / só sei que ela está com a razão".
espetou um camarãzinho, o saboreou de olhos semi-cerrados, deu um gole na cerveja, rabiscou mais um verso, e, ainda sem saber de quem era a autoria, continuou a canção: "sei lá sei lá / só sei que é preciso paixão / sei lá sei lá / a vida tem sempre razão". tinha violão afinado e linda voz.
você e eu sentamos por perto, mas não muito para não interromper a performance da estrela. poderia ficar lá horas a fio só para ouvir sua linda voz e seu violão afinado. só voltaria para casa à noitinha, quando os mosquitos começassem a picar ou até o momento em que a estrela quisesse voltar para o céu. a estrela porém, não iria embora tão cedo, porque precavida que era, ao contrário de você e de mim que sempre esquecemos de tudo, levara seu repelente.

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