quinta-feira, outubro 25, 2007

Espelho-Espelho

Luz para ver (Foto: Quésia F.)

Mirror Mirror on the wall
True hope lies beyond the coast
You're a damned kind can't you see
That the winds will change
Mirror Mirror on the wall
True hope lies beyond the coast
You're a damned kind can't you see
That tomorrow bears insanity


Mirror Mirror – Blind Guardian


Já se olhara no espelho e sentiu saudade antiga. Agora pensava no futuro. Um avermelhado no canto do olho direito que ardia feito desodorante barato cheio de álcool que, por acidente, se espirra no recém corte do fazer a barba. Sobrancelha mal desenhada, olhos desbotados e não era o espelho enferrujado que tomava todo o sol da tarde de todos os dias menos os de nuvem. Face amarelada que não era por causa da iluminação incandescente dos filamentos que são, geralmente, feitos de tungstênio, metal que só derrete quando submetido a temperatura altíssima, e que já dissera tantas vezes preciso trocar essas malditas lâmpadas por aquelas brancas para ver se diminuo a conta de luz que tá vindo altissíssima. Ao olhar para baixo já ficara triste por não conseguir enxergar o dedão do pé esquerdo – sim, o único que lhe restara, o outro havia perdido num acidente de trem a caminho de Santa Helena quando ia visitar a tia Lúcia que tinha sofrido um infarto do miocárdio de entupimento de uma veia do coração e a suspensão do Bextra da Pifzer num tava dando jeito e ficara assim, toda derramada. Uma história longa e trágica que só contava enquanto bebia gim com soda com amigos ou com estranhos não importava. Não parava de repetir uma frase, “A Vida é Dura”, que ouvira na televisão, e não lhe saía da cabeça um pensamento que parecia repetir-se como o barulho de um martelo a bater in-sis-ten-te-men-te: era preciso se reinventar. Era preciso tomar o controle do tempo de volta. Mas nada disso lhe parecia preciso; muito pelo contrário, tudo era muito incerto, a começar pelo sinal que estava lá, nos cantos dos olhos e não dava para estar seguro se eram rugas ou um pedacinho do aço do espelho que havia se desgarrado.
[Ouvindo: "Choro chorado pra Paulinho Nogueira" - Toquinho e Vinícius]

segunda-feira, outubro 08, 2007

A Voz e o Violão da Estrela

A onda mais próxima que há - Extensa faixa de areia e mar marron-caramelizado: Praia de Grussaí, Litoral de São João da Barra-RJ (Foto: Quésia F.)

era uma estrela. caminhava lentamente. areia quente, pés no chão. sentia a brisa que vem e que vai. que leva e que traz o cheiro salgado do mar e a canção das ondas. era manhã de sol e a estrela contemplava a metrópolis. tinha o dia inteiro, o que é muito pouco tempo para quem quer conhecer o mar. era uma estrela, e, como qualquer outra estrela, quando caminhava, sorria. calma e constante ela andava, de um jeito que nem você nem eu, que andamos arrastando o chinelo, jamais conseguiremos ser. era só uma estrela só. já disse que a metáfora tem hora? era só uma estrela luzente e sorridente como qualquer outra. tudo que passar disso é imaginação sua.
a estrela, que também brilhava muito, ficava com as pupilas tão pequeninhas por causa do sol. de vez em quando olhava para o céu que estava tão lindo como os céus de abril. usava óculos escuro e protetor solar para não se queimar. ao entrar na água, o fazia lentamente, um pé após o outro, sem pressa nenhuma. diferente de você e eu que andamos apressados e correndo. não era por medo, já que estrela não se afoga nem toma caixote e ela sabia disso. era só precaução mesmo: coisa de etiqueta.
passou num quiosque e pegou uma cerveja, é claro, uns camarões fritos, uma água tônica Schweppes com gelo e limão e um violão emprestado. sentou-se à sombra de um coqueiro e cantava uma canção que ouvira ao passar pela praia enquanto escrevia poesia. de quem era aquela letra mesmo? era Toquinho? seria Vinícius? "sei lá sei lá / a vida é uma grande ilusão / sei lá sei lá / só sei que ela está com a razão".
espetou um camarãzinho, o saboreou de olhos semi-cerrados, deu um gole na cerveja, rabiscou mais um verso, e, ainda sem saber de quem era a autoria, continuou a canção: "sei lá sei lá / só sei que é preciso paixão / sei lá sei lá / a vida tem sempre razão". tinha violão afinado e linda voz.
você e eu sentamos por perto, mas não muito para não interromper a performance da estrela. poderia ficar lá horas a fio só para ouvir sua linda voz e seu violão afinado. só voltaria para casa à noitinha, quando os mosquitos começassem a picar ou até o momento em que a estrela quisesse voltar para o céu. a estrela porém, não iria embora tão cedo, porque precavida que era, ao contrário de você e de mim que sempre esquecemos de tudo, levara seu repelente.